ACADEMIA MAGEENSE DE LETRAS


VOLTA

SELETA ACADÊMICA


Seleção de Antônio Seixas.

MINHA OBRA PRIMA

Quisera ser Rembrant para pintar
Teu vulto resplandecente e gracioso
E após, a tua graça eternizar
Nas tintas de um pincel maravilhoso!

Quisera ser um Dante esplendoroso
A fim de na Comédia colocar
Teu fúlgido perfil tão saboroso,
Fonte perene de emoções sem par!

Se eu fosse Miguel Ângelo, morena,
Faria a tua estátua tão serena
Que ao mundo causaria um estertor...

Mas eu não sendo nada... tendo apenas
Meus versos, mal sufoco as minhas penas
Tentado te provar meu grande amor!

MÁRIO DE ALMEIDA COELHO


O PAPEL DO LIVRO NA CULTURA BRASILEIRA

Afirmo que é fundamental, imprescindível, o papel do livro dentro do processo de formação cultural e educacional de um povo.

O livro não é apenas um texto, representação de uma literatura, ou algo encadernado para se guardar nas estantes e ficar escondido debaixo da poeira.

O livro é uma obra de variados conteúdos, descortinando um mundo, são letras vivas, acesas, chamas que saltam de suas folhas impagáveis diante do olhar do leitor atento, que gosta de viajar, navegar, soltar a imaginação nas asas das palavras e sentir o toque forte de cada uma, que o leva à algum lugar.

O livro sempre exercerá sua função de cumplicidade, aliado, parceiro dos que buscam entender o mundo e a si próprios. Não importando o número de páginas e quantas ilustrações ele possa ter. o que marca, o que fica, o que registra na mente é o seu glossário, o elenco de conteúdos que serão envolvidos e investigados na leitura de cada leitor. Na interpretação que ele faz e no crescimento cultural que ingere, que degusta, que absorve na sua eterna busca de conhecimentos e na sede que mata na fonte do livro.

O livro é uma via de conhecimento, o leitor, até o menos exigente, quando o pega, trata-o com carinho e zelo, sabe que ele conforta, alivia, mostra rumos, mesmo ali calado, silencioso, depositado nas prateleiras, manuseados, a força de suas palavras rompe silêncios e barreiras, sendo o grito do acordar da cultura brasileira.

Portanto, destacar a importância do livro na cultura brasileira é reconhecer em cada obra escrita o retrato do Brasil pelo qual identificamos a nossa própria História.

REINALDO JOSÉ FERREIRA


TROVAS

Da vida o segredo eterno
Em duas parte se encerra:
Nasce do ventre materno,
Morre no ventre da terra.

Esta verdade consola
A tanta gente sofrida:
Quem não aprende na escola,
Apanha da própria vida.

Alma gêmea de minha alma,
Não me tortures assim,
Pois, de toda a tua calma,
Não tenho a metade em mim.

O tempo sem piedade,
Como se fosse assassino,
Matou-me a felicidade
Não me deixando menino!

Mãe, o seu último adeus
Se tornou tão dolorido
Que ouso pensar que Deus
Chorou também comovido .

Foi tanta gente querida
Residir na eternidade
Que a rua de minha vida
é asfaltada de saudade.

ADOLFO MACEDO


IDÉIA DE DEUS

Aqui está o tema mais complexo que já nos foi dado abordar. Discorrer é opinar sobre Deus, é externar aquilo que temos na alma, no espírito e na concepção; por ser tão sublime, ficamos incapacitados de disseca-lO com opinião firme e argumento sólido.

A evolução mental e o elevado espírito de crítica do homem que raciocina, esbarra quase sempre na perfeita idéia de Deus.

Através dos tempos e universalmente, o homem profere-o de acordo com o recalque que aniquila ou o jubilo que envaidece.P> O inconseqüente profere seu nome, com a mesma facilidade com que evidencia sua descrença.

O homem da rua profere-O indistintamente, quando no trabalho ou na diversão. Não escolhe um momento para abordá-lo.

O incrédulo aclama-O em suas amarguras, buscando o divino remédio que o salve dos maus momentos.

E, por fim, a vítima dos vícios, que viu o seu Deus por entre as estampas multicores da roleta em movimento, e já não O vê, pois tem os bolsos vazios...

As idéias em torno de Deus são as mais desencontradas e imperfeitas, quer na infância, adolescência ou velhice.

...Deus é o mar? Deus é o sol? Deus é o Universo?

Resumi tudo isso dizendo: - Deus é a natureza!

Surgiu, então, o poeta e em seus versos dissimétricos e filosóficos, como se fosse a própria natureza descrente de si mesma, assim escreveu:

“ – Será que eu, causa do mundo,
quanto mais em mim mesma me aprofundo
menos interiormente me conheço?”

Porém, desculpe-me o poeta. Eu completaria seu pensamento, afirmando:

- Deus é a natureza!

Ela não se conhece, afinal, porque esse mesmo Deus negou a todos os filhos, aos que o adoram e aos que O desprezam, o direito de conhece-lO!

ERALDO DE MIRANDA TELLES


A MULHER

Ser feliz
Todo mundo quer
Mas só quem é feliz
E mesmo a mulher
A mulher, e frágil e forte
ao mesmo tempo
Pois sabe ser doce ou amarga
Tudo quando quer
Assim e a mulher
No amor, ela e quem comanda.
O homem fica a desejar
Os filhos que dela nascem
Consideram-na a Rainha do Lar
A família só aumenta
Se uma filha nascer
O filho que ela tiver
E neto sem precisar DNA fazer
O homem com toda sua força
Frágil fica para o amor receber
Pois muitas vezes
Nem carinho sabe fazer
Só a mulher
Tem a capacidade de um filho gerar
Amamentar, vendo ele crescer
E tudo nesta vida lhe ensinar
Assim é uma família
Venha de onde vier
Pobre, rico, preto ou branco.
Só existe família, tendo uma MULHER.

ALZIR FERREIRA


PIEDADE

As vezes, tenho a impressão que volto ao passado, para reviver o momento histórico, em que Simão da Mota desembarcou na Piedade.P> O robusto português descera, então, do bote, vastas barbas ao vento, bota de couro de veado com cinzela de prata, jibão rústico de ele, cabelos longos e prateados, bigodes vastos, também embranquecidos.

Mal aportara a canoa, ele já saltara, colhendo-lhe as ondas passadas vigorosas. Seu tacão, beijava, na sua rudeza, as areias virgens de uma praia belíssima. Depois dele, vieram os pés delicados das damas, com seus trajes longos, longos, arrastando na areia; mais portugueses e, por último, os pés descalços e rudes, dos escravos, que remoíam um lamento africano.

E o morro da Piedade recebeu a todos, de braços abertos...

Passaram-se os anos. Surgiram escola, banda de música, hotéis, o Padre Anchieta e seu poço bento, o navio Presidente encostou no cais, onde mil barquinhas de pescadores já estavam...

Piedade recebeu visitas ilustres, de vizinhos das ilhas próximas... Paquetá, a linda Caraíba, dos luares incessantes, dos flamboyants, das rendas na espuma das ondas...

Os anos se acumularam na escla do tempo, e magé progrediu... Piedade estacionou!

Dizem as lendas, que as noites fechadas, vividas no porto maravilhoso, trazem no vento, ruído de botas na água... gargalhar de sedas... lamentos de escravos... Dir-se-iam vozes de saudade que, teimosas, repetem recordações de uma Piedade que não voltará jamais!

RENATO PEIXOTO DOS SANTOS


CREPÚSCULO.

O mar, a baía, o Vesúvio ao longe,
e a saudade chegando de mansinho...

Olho os longos caminhos
Que minha solidão vem percorrendo,
Nesta ânsia de infinito,
E sinto o desalento
Do inatingível.

Meu Deus! Como estou só!

A beleza da tarde
Abre sulcos de ouro
Na paisagem adormecida
De minha nostalgia.

Sensualmente
O marulho das ondas
Sussurra ternuras
Aos meus ouvidos embotados,
Enquanto a aragem,
Suavemente,
Embala meus pensamentos
Na doce rede
Das recordações.

O mar, a baía, o Vesúvio ao longe
E a saudade chegando de mansinho...

Meu Deus! Uma tarde assim,
E eu sozinho...
ARTHUR DALMASSO


PÉROLAS AO LONGO DO CAMINHO.

Guarda o teu dono ganso inocente, amanhã ele nem saberá a quem dar os teus ossos.

Os homens prendem os pássaros por inveja: pois não sabem cantar como eles e sentirem a harmonia universal.

Um homem comum pode tornar-se um monstro; basta fazer dieta do Amor.

Tenho os meus pássaros nos galhos; plantei várias árvores.

Todas as pessoas têm razão; uma porque sabem; outras porque não sabem; e outras porque pensam que sabem.

Ampara as criancinhas, na esperança de um doce porvir.

Acautela-te dos que falam sem pensar e dos que pensam e não falam.

na vida é importante parar; não para descansarmos, mas para podermos visualizar o caminho a seguir.

é claro que não precisas ser o primeiro violinista da orquestra; basta tão-somente que faças parte dela.

Para o artista, o amor é o fermento do seu pão de cada dia.

GERALDO MACHADO DE MATTOS


ILHA SEMPRE

Das ilhas que inventei esta sobrou
Permanecida, coagulada, extática,
Enquanto a vida continuava errática:
Ilha concreta em que a manhã parou.

Ilha da longa praia, onde o horizonte
Morria ao pé da amendoeira densa
E o menino se enchia da presença
De tantos seres, num manar de fonte.

O colégio de dona Petisinha,
Covos secando ao sol. Pardais nas frondes.
A vala. A fábrica. O guindaste e a ponte.

A igreja. Mês de maio. Ladainha.
Meu aVô pescador. A barca. Os bondes.
Tantas ilhas na ilha que foi minha.

JOSÉ INALDO ALONSO


RETRATO DE MULHER

Na lida diária, distante de pensamentos amorosos, rebuscando documentos, encontrei o teu retrato. Foi bastante para lembrar do nosso primeiro encontro, onde tudo em ti me agradou, como criatura, além da sensível competência profissional, com que tu se apresentaste, na memorável solenidade que nós presidíamos.

O teu charme, atua postura, tudo em ti é muito agradável, além de sedutor. Teus valores positivos, em todos os sentidos preencheram os meus sonhos, então vazios.

Mais tarde, na avaliação do programa que havíamos vivido, em um longo documento manuscrito, ainda muito protocolar, tu te queixavas do egoísmo de um nosso companheiro bem mais velho. Lembro da minha resposta, onde procurei ser afável, esperançoso, também acalentador. Nosso relacionamento continua ater hoje, para minha alegria. Mas um ensejo pecaminoso fica cada vez mais distante. O tempo é muito pouco para tratarmos de nossas atividades artísticas. Não nos sobra espaço ocioso para viver algo diferente. Afinal, um amor apenas retratado não caracteriza uma realidade.

Uma mulher só se realiza se estiver ao lado de um homem que a prestigie, em todos os sentidos, mormente suas necessidades amorosas, confortantes.

A mulher é sempre mulher, mesmo respeitando a cobertura social que ela hoje, merecidamente, ostenta. Ela também precisa ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. O adágio ratifica a tua condição de mulher operosa, porque vejo carinhosamente tudo em ti, mas...

JORGE DA MATTA FREIRE.


TROVAS

Nem sempre a briga é conflito
Quando o bom senso a conduz:
Certas pedras, em atrito,
Soltam centelhas de luz.

O trajeto que o destino
Para nós dois reservou,
Foi deveras pequenino,
Em minutos... se acabou.

Que fracasso, que vergonha!
- disse a Velhinha espantada –
ao ver uma sem vergonha
com seu Velhinho agarrada.

Ausência, palavra amarga,
Saudade não sei de quem:
Tristeza que a voz embarga
Nesse amor que vaie vem.

Pai, que do Céu infinito,
Reprovas filhos em guerra,
Atende meu rogo aflito
E volta de novo a terra!

Eu tive ilusões vividas,
Convivi com ilusões.
Ilusões que foram vidas
Vidas que foram paixões.

A saudade não me abala
nem tristeza me corrói:
o desprezo é que avassala
e meu coração destrói.

HAROLDO R. CASTRO


HOJE EU SOU EU

Não quero recordar
Nada que me lembre você
O meu mundo não caiu
Porque me segurie em Deus

Meu ar era você...
Minha luz era você...
Meu som era você...
Eu vivia você

Mesmo sendo de carne
eras um ídolo barato
que eu quebrei

Foram anos, muitos anos
que vi pelos seus olhos
falei pela sua boca
meu corpo era seu

dei-te tudo que era meu
virgindade
sonhos
anos de vida

Quando quebrei o ídolo
acordei

hoje eu sou eu...

EDITH PIERI


FESTA EM MINHA CIDADE

Os homens vão ao bar
Para falar barbaridades
Discutir suas vantagens
E fazer suas sondagens.

É festa em minha cidade!

As crianças vão e vem
Ouço o apito do trem
O artista desafinado
Canta uma canção sem som.

É festa em minha cidade!

As pessoas passam
Procurando o evento
E os carros em busca
De um ponto para parar: vem e vão.

É festa em minha cidade!

A igreja dorme, os fiéis vão
A praça em busca do material
Os políticos se emanam
Em busca do poder
Pagam geral para a galera.

É festa em minha cidade!

O chope ferve no copo
A música passa sobre a música
E uma voz abafada
Pede um voto,
Grita um nome;
Balbucia um número,
Ninguém ouve só os adeptos da Seita.

É festa em minha cidade!

De repente uma balbúrdia:
É ele... e ele não vem
A criança passa no colo da criança;
O homem vende amendoim quente,
O rapaz passa tímido com os prospectos na mão
Tem que trabalhar para o patrão.

É festa em minha cidade!

Alguém fala,
a velhinha passa correndo,
o cachorro se escondeu,
os fogos disparam.

É festa em minha cidade!

O guarda chega para prender o caloteiro
Que não pagou a bebida.
João sentado à mesa
Busca mais uma presa.

É festa em minha cidade!

A moça de bicicleta pára
Para um papo com o amigo Joaquim.
E o bar da esquina repleto pára
Para ver o “Filho do Leão”.

É festa em minha cidade!

As faixas bailam como
Um móvel painel.
O padeiro que vende pão
E até o professor curte a ilusão.

É festa em minha cidade!

MARILENE BARCELLOS DANTAS.