ACADEMIA MAGEENSE DE LETRAS
Antônio Seixas
Cercada por uma vegetação exuberante, a paisagem no entorno da Fazenda da Barreira (ou do Soberbo ou de Henrique José Dias) encanta com suas altas montanhas no plano de fundo e rios que descem em leitos de seixos rolados.
Testemunha de uma Guapimirim do século XIX, a Fazenda guarda muitas histórias, como a da passagem dos cientistas Von Martius e Spix, a 1.ª plantação de quina no Brasil, a visita do Rei Alberto I, da Bélgica e a criação do Parque Nacional da Serra dos Órgãos.
A sede da fazenda “é de meados do século XIX, com planta regular rigorosamente simétrica marcada pelo eixo central do corredor. A casa em um só pavimento está assentada na parte posterior do terreno, ganhando altura, em função do declive, para um depósito localizado na frente da construção. Há uma dominância de linhas horizontais ressaltada pela forte cimalha que contorna as quatro fachadas. O tratamento destas é idêntico – mesmo tipo de esquadrias, cimalha – só diferenciando a fachada principal o maior número de aberturas e a escada principal de acesso, elemento plástico de maior importância na edificação” (Inventário dos bens culturais de Magé, 1988, p. 222).
Consta que no ano de 1817 nela permaneceram hospedados os naturalistas Johan Baptiste von Spix (1781-1826) e Carl Friedirch P. von Martius (1794-1868), um zoólogo e um botânico, respectivamente, integrantes da comitiva de cientistas que a Imperatriz D. Leopoldina trouxe para o Brasil. No diário de viagem da dupla encontramos preciosos relatos, ainda, sobre o Porto da Piedade, em Magé, a Fazenda da Mandioca, do Barão Langsdorff e da estrada real para Minas Gerais.
Osiris Rahal, em seu livro Reminiscências de Teresópolis nos diz que em 1841 “foi estabelecida a barreira da Serra do Couto, no local ainda hoje denominado de Barreira do Soberbo” (1987, p. 126). O pedágio foi construído por Francisco Leite Ribeiro, com a permissão do governo imperial, para custear as despesas de manutenção da estrada e funcionou até 1846. Importante lembrar que a Serra dos Órgãos é assim chamada em documentos antigos, numa clara homenagem ao fazendeiro João do Couto, que possuía quatro fazendas na região. Interessante, ainda, é a leitura do Relatório da Seção de Obras da Província do Rio de Janeiro de 1844. Nele encontramos a informação que a Barreira arrecadou 6 mil Contos de Réis e por ela passaram 250 animais no ano anterior.
Em 1868 nela iniciou-se a 1.ª plantação de quina no país, planta de onde se extrai o precioso anti-febril quinino. Gilberto Ferrez nos diz que na fazenda de Henrique José Dias D. Pedro II e comitiva encontram mais de sete mil pés deste arbusto (Colonização de Teresópolis, 1970, p. 117). Tal era o sucesso do empreendimento, que o próprio Imperador, em janeiro de 1874, forneceu “uma subvenção régia do seu bolso privado, para que o proprietário da mesma pudesse dar expansão maior às culturas” (Azevedo Silva, Terra Fluminense, 1955, p. 191). Já em 1880 a produção atingia a marca de 12 mil pés e 10 mil mudas em viveiros. Infelizmente, o auxílio financeiro não foi contínuo e a produção da fazenda voltou a ser de café, mandioca e banana.
No ano de 1896 inicia-se a construção da ferrovia ligando Magé a Teresópolis. A linha, partindo do Porto da Piedade fica estacionada em Guapimirim até 1901. Em 11 de junho de 1904 é inaugurada a estação da Barreira, erguida em caráter provisório e desativada em agosto de 1905, quando os trilhos foram mudados para a região do Muidinho, um aterro no meio da serra teresopolitana.
A Fazenda Barreiras, às margens do rio Soberbo, recebeu uma visita ilustre em 28 de setembro de 1920: o rei Alberto I, da Bélgica. Indo visitar Teresópolis, aquele monarca desembarcou do trem na Fazenda da Barreira e aproveitou para conhecer a região, acompanhado do Presidente da República, Epitácio Pessoa, e de Raul Veiga, então Governador do Rio de Janeiro.
Finalmente, em 29 de novembro de 1939, através do Decreto n.º 1822 do Presidente Getúlio Vargas, a Fazenda da Barreira passou a integrar o Parque Nacional da Serra dos Órgãos, constituindo sua sub-sede. Iniciativa do engenheiro Armando Vieira, o parque teve sua área aumentada em 1984 para 105 km².
Em 1972, a sede da fazenda foi restaurada para abrigar o Museu Von Martius, dedicado a preservar a memória da fauna e da flora da região, registradas pelo famoso viajante. Apesar de algumas crises administrativas e financeiras, o local ainda é o preferido por excursionistas, montanhistas e amantes da natureza.
Jornal Voz da Serra (Coluna Histórias da Serra)
Guapimirim, agosto de 2006, n.º 101, p. 03